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Carta de julho de 2010
Agora, já tem uns dez anos que eu conheço o pirarucu. Nessa época, eu trabalhava na Embaixada Real da Dinamarca e não tinha a menor idéia do tanto que uma embaixada - da moderna e descolada democracia Dinamarquesa - era... Real.
A gente recebeu um comunicado que Sua Majestade a Rainha e o seu marido Sua Alteza Real, o Príncipe Consorte, viriam passar duas semanas no Brasil numa Visita de Estado. Aí começou uma das maiores loucuras da minha vida: A vinda da Rainha.
Na escola, nos anos 70, aprendemos que todos são iguais. O equivalente em dinamarquês de O Senhor e A Senhora viraram termos reacionários e logo caíram em desuso. Até os jornalistas, na TV ao vivo, começaram a chamar o Primeiro Ministro de você.
Com a chegada da Família Real no Brasil (estou falando da dinamarquesa, mas poderia muito bem ter sido a própria portuguesa) fiquei chocado por me ver, de repente, como lacaio numa peça de teatro barroco, afetado e artificial.
Quando me recordo disso hoje, vejo todo mundo de perucas enormes, cheirando rapé e com cara de pânico pela possibilidade de ser degolado por soltar um inesperado e insultante você à Sua Majestade a Rainha.
Graças a Deus, a Rainha (que tem fama de difícil...) e o Príncipe Consorte (que tem fama de difícil...) se encantaram pelo Brasil. Comeram acarajé no meio da rua na Bahia, deixaram crianças da Rocinha subirem no colo e darem beijinhos, e nos palacetes cariocas se deliciaram conversando em francês com “os Marinhos” & Cia.
O Príncipe se encantou tanto que resolveu dar uma esticada até a Amazônia para pescar, e eu, coitado de mim, fui incumbido, de uma hora para outra, de arrumar uma pescaria no absolutamente melhor lugar que tivesse e com a ameaça de que, se essa programação não agradasse, eu seria o culpado pelo fracasso de toda a visita de Estado e com conseqüências que eu não tinha a menor capacidade de imaginar.
Bom, mas depois de um trabalhão logístico, consegui botar Sua Alteza Real dentro de um monomotor rumo à Amazônia: eu sentado de frente dele, na minúscula cabine, com câimbra nas minhas pernas, espremidas num canto para não ficar “trocando intimidades” com a quase majestade.
O lugar era lindo e selvagem e logo fomos à pescaria. Eu,
inquieto como sou, já me preparei para atirar o primeiro anzol. Imediatamente, senti uma mão firme segurando meu pulso e me deparei com os olhos de aço do Lord Chamberlain, que dizia ironicamente: não seria uma boa idéia deixar a Sua Alteza atirar primeiro?
Parecia uma cerimônia a jogada dele. Só faltavam as fanfarras da infantaria! Todo mundo em silêncio, seguindo com os olhos o anzol real voando pelo ar, até cair no meio do rio São Benedito. Enganchou, deve ter pensado todo mundo quando a vara real se curvou e zumbiu, prestes a se romper. Imediatamente me lembrei do fracasso que foi uma pescaria com meu pai, na Ilha do Bananal, quando um cardume de piranhas roubou seu anzol da sorte, herdado do meu avô, e, logo depois, roubaram também o segundo melhor anzol dele...
Mas, de repente, abriu-se um sorriso enorme no rosto do Príncipe, que enrolava sua carretilha com toda a força... era um peixe enorme! E com a ajuda de todos conseguimos botar em terra firme, um peixe gigantesco – que eu nunca tinha visto – e que tinha quase dois metros, impossível de ser segurado por uma pessoa sozinha. O ajudante caboclo disse que era um pirarucu e, ansiosa, a Embaixadora gritou impaciente: Simon, acorda, traduza logo para Sua Alteza Real o nome do pescado em dinamarquês...
Até hoje desconheço o nome desse gigante na minha língua materna, mas sei que sua carne é deliciosa e, como é gorda, fica fantástica defumada.
Este mês, aqui no Aquavit, a entrada será pirarucu servido numa salada, que tem cara da salada nórdica que servimos, mas não é. É nortista...
Também vamos servir o mais nobre produto das matas brasileiras: o palmito, que realmente amo de paixão, pelo seu sabor suave e porque acho uma das coisas mais requintadas que conheço e, obviamente, mesmo sendo um lacaio desimportante, consegui que a família real não deixasse o Brasil sem antes prova-lo.
Este mês vou servir, também, um peixe grelhado e temperado com baunilha do cerrado. Infelizmente, não servi essa iguaria ímpar às altezas porque, na época, ainda não sabia que as matas do cerrado escondiam essa rara orquídea.
Sejam todos bem-vindos.
Menu de julho de 2010
Salada com pirarucu defumado, batatas, ovos de codorna, polvilho azedo e maionese de tucupi
Scharzhof, Riesling, Mosel, 2007, Alemanha
Talharim de palmito, lagostins e mousse branco de tomate
Attems, Pinot Grigio, Collio, 2008, Itália
Filé de peixe servido com feijão fradinho no molho de creme de leite na baunilha do cerrado, com foie gras grelhado e estragão
Hayes Ranch, Chardonnay, 2008, Califórnia
Codornas recheadas puxadas na manteiga servidas com endívias e beterrabas glaceadas e redução
Envoy, Colonial State, Barossa Valley, 2006, Austrália
Morango, morango, morango e morango
Santa Rita Moscatel Late Harvest, 2008, Chile
Café, chá e madeleines
Menu completo: R$ 178,00
Menu de vinho completo: R$ 120,00
Menu de 4 pratos: R$ 151,00
Menu de vinho: R$ 110,00
Menu de 3 pratos: R$ 130,00
Menu de vinho: R$ 97,00 |